O Blog do Icarus

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Arquivo para o mês “dezembro, 2011”

Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte III – Galáxias sem protuberância

O Brian Thomas(1) do Institute for Creation Research, escreveu um artigo intitulado: «Descontroladamente inesperado. Galáxias desafiam simples explicações naturalistas», demonstrando e muito bem como o criacionismo de científico não tem nada.

O autor já erra logo no título. Dificilmente as explicações naturalistas em Astronomia são simples. Se alguém tem alguma dúvida, basta abrir as publicações científicas e verificar como é complexo a Física e Matemática, bem como os equipamentos envolvidos nos trabalhos. Simples mesmo é evitar todo este trabalho duro de investigação e concluir apressadamente “Foi Deus quem fez”, como faz o Brian Thomas.

A idéia principal do artigo é mostrar como as teorias sobre a formação de galáxias não se encaixam perfeitamente com as observações. Resumidamente, acredita-se que galáxias espirais, como a nossa, adquirem protuberância, que é uma alta concentração de estrelas  no centro da espiral, devido ao canibalismo de outras galáxias. Entretanto, algumas galáxias não tem esta protuberância(2) e esta razão ainda é desconhecida.

O Brian Thomas faz uma citação do John Kormendy, astrônomo da Universidade do Texas, em um artigo da New Scientist(3): «Nós não sabemos como prevenir a formação da saliência quando as galáxias crescem muito via fusões».  Como de costume, ele só cita as partes que lhe interessa, e esta frase permite encaixar perfeitamente o seu deus das lacunas.  Podemos ainda não explicar hoje, mas apostar que no futuro a ciência não conseguirá, é uma aposta que tende ao fracasso. A história da ciência nos mostra que quanto mais avançamos, menos dependemos do sobrenatural. Infelizmente, os criacionistas nunca aprendem esta lição.

Seguindo o texto, ele faz uma afirmação bombástica: [Em tradução livre] «Parte do modelo padrão é que no início, pequenas proto-galáxias colidiram com outras e se tornaram as galáxias maciças de hoje. A conjectura carece de verificação observacional». Das duas uma: Ou o Brian Thomas não entende nada de astronomia ou ele mente descaradamente em prol da sua agenda religiosa.  Pode ser ainda um misto das duas respostas.

Nós já observamos diversas colisões galáticas no Universo, conforme podemos ver nesta série de fotos do Hubble(4).

Este artigo teve origem a partir de uma discussão(5) com o criacionista Jónatas Machado, aka perspectiva, onde ele afirmava categoricamente que as observações não contradizem a Bíblia. Eu devo agradecer a ele pela quantidade de links e pela oportunidade de entender melhor o criacionismo. É uma pena que o Jónatas não tenha ele estudado ele mesmo as fontes, pois as galáxias que tem as protuberâncias são bem explicados pela teoria atual e as colisões galáticas levam milhões de anos, refutando o seu criacionismo da Terra Jovem.

Finalizo este artigo com uma bela simulação de colisão entre a nossa Via Láctea e a galáxia de Andrômeda, do Universe Sandbox(6).

Fontes:

1 – Institute for Creation Research – Wildly Unexpected’ Galaxies Defy Simple Naturalistic Explanations
2 – Universe Today – The Case of the Missing Bulges
3 – New Scientist – Slim and beautiful: Galaxies too good to be true
3- Como o artigo da New Scientist requer assinatura, encontrei o artigo no site da University of California
4 – Hubble Web Site – Cosmic Collisions Galore
5 –  Comentários no Que Treta!
6 – Universe Sandbox – Interactive Astronomy Software for Everyone

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Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte II – Retardatários azuis

Como eu disse no artigo anterior, esta sequência de textos tem como objetivo esclarecer os equívocos cometidos pelo criacionista Jónatas Machado em uma discussão que eu tive com ele no blog Que Treta!.

Ele me disse que «Quase todos os dias estrelas jovens aparecem onde os modelos de evolução cósmica dizem que não deveriam estar»(1) e isso, segundo ele, serve como prova  contra o FATO de que já existiam estrelas no Universo antes da formação do Sol.

O site que o Jónatas Machado usa como fonte é do Institute for Creation Research [ICR]. Estes sites sempre distorcem os artigos científicos para darem crédito a sua agenda religiosa, como eu pretendo mostrar abaixo.

Logo na segunda frase, o artigo do ICR já faz uma afirmação desonesta: «Estrelas azuis não deveriam existir em um Universo que tem 13,7 bilhões de anos, porque elas devem ter queimado bilhões de anos atrás»  Se todas as estrelas tivessem sido formadas ao mesmo instante no princípio do Universo,isso estaria correto, porem isso não é verdade. Estrelas “nascem” e “morrem” a todo tempo.(3)

Estrelas geralmente são formadas com uma quantidade definida de gases, sendo a maior parte destes gases o hidrogênio.  No núcleo da estrela como o nosso Sol, cerca de 10% do interior atinge temperatura e pressão altas o suficiente para que ocorra a fusão nuclear, sendo esta a responsável pela energia da estrela. A reação nuclear gera força suficiente para manter a estrela em equilíbrio em relação a pressão exercida pela gravidade,evitando desta forma que ela entre em colapso. Em estrelas pequenas, há menos força da gravidade, desta forma as pressões e as temperaturas são mais baixas então a fusão nuclear ocorre mais lentamente.  Em grandes estrelas,  as pressões e as temperaturas são mais altas,  logo a fusão nuclear ocorre em um ritmo muito mais rápido. Isso significa que estrelas do tipo anãs vermelhas, que são significativamente mais leves que o Sol, serão capazes de fundir o hidrogênio por 10 trilhões de anos, enquanto que o nosso Sol, uma estrela do tipo anã amarela, tem uma vida útil estimada em 10 bilhões de anos. Estrelas supergigantes azuis, com massa cerca de 50 vezes a massa do nosso Sol, tem a sua vida estimada em 10 milhões de anos.

Em aglomerados globulares, agrupamentos de muitas centenas de milhares a milhões de estrelas, falta material interestelar para a formação de novas estrelas. É sabido que os aglomerados que rodeiam a nossa galáxia são muito antigos, da ordem de 10 bilhões de anos.

Alguns aglomerados(4) contem algumas estrelas supergigantes azuis conhecidas como retardatários azuis. A princípio não deveriam existir estrelas jovens como esta em um aglomerado de estrelas velhas.

A conclusão do artigo do ICR é que como não existem explicações razoáveis para a origem natural dos retardatários azuis, então faz mais sentido o Universo ter apenas alguns milhares de anos, como esta escrito na Bíblia.

Na verdade, o artigo apela para a costumeira falácia do apelo a ignorância. Nós não sabemos como se formam estas estrelas então devem ter sido criadas por Deus. O artigo para fazer sentido deve concordar que existem estrelas muito velhas em aglomerados, da ordem de bilhões de anos, e isso por si só, já refuta automaticamente a idade jovem do Universo.

A ciência não tem todas as respostas prontas. A história da ciência nos mostra que quando não sabemos explicar um evento, o melhor é arregaçar as mangas e investigar até chegar a uma resposta. É assim que o conhecimento avança. Acreditar que Deus fez não explica absolutamente nada.

Existem algumas hipóteses(5) candidatas a explicarem a formação de retardatários azuis, a mais promissora, diz que uma estrela rouba material de outra estrela, transfomando-se em uma gigante azul.

Fontes

1 –Comentários no Que Treta!
2 – Institute for Creation Research – Young Blue Stars Found in Milky Way
3 – Inovação Tecnológica – Telescópio Herschel captura nascimento de estrelas
4 – Nasa Hubble WebSite – NASA’s Hubble Finds Rare ‘Blue Straggler’ Stars in Milky Way’s Hub
5 – solstation.com – Blue Stragglers

Texto baseado no blog Exposing PseudoAstronomy

Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte I – Galáxias distantes

Em uma discussão “interessante” no blog Ktreta(1) com o Professor de direito e criacionista Jónatas Machado, reconhecido pelo apelido Perspectiva, recebi uma série de links que tinham como objetivo contrapor o meu argumento de que é um FATO o nosso Sistema Solar ter se formado muito depois da formação de outras estrelas no Universo.  Segundo ele, as minhas “provas” e os meus “factos” apoiam-se em modelos desmentidos pelas observações.

Qualquer pessoa minimamente informada sobre astronomia sabe que eu tenho razão. É um conhecimento muito bem estabelecido, mas que causa um sério problema para o criacionismo da Terra Jovem, pois segundo o Gênesis(2) o Sol e as estrelas foram criados depois da Terra, no quarto dia da criação. A Astronomia contradiz completamente a Bíblia e desta forma, não é de se estranhar que ela receba dura oposição por parte dos criacionistas.

A afirmação do Jónatas é extraordinária, pois se fosse verdade, todo o conhecimento astronômico deveria ser jogado na lata do lixo. Nós deveríamos ver uma forte movimentação nas agências espaciais como a NASA, ESA, bem como as universidades com especialização em astronomia. Porem, nada disso foi observado.

Ele me passou muitos links, e eu pretendo escrever sobre todos eles com o tempo. A maioria dos links é do Institute for Creation Research [doravante ICR]. Eu já deveria recusá-los pois não se trata de publicações científicas. Mas não o farei, justamente para demonstrar a desonestidade que ocorre em sites como este.

Em um dos links do Jónatas, apontava para um artigo do ICR(3) intitulado em tradução livre:  “Galáxias distantes muito maduras para o Big Bang”. Segundo o artigo, a observação de uma explosão de raios gama passou por duas galáxias distantes durante o seu caminho a Terra, revelando uma composição química madura demais para estas galáxias jovens. A conclusão do ICR é que o Big Bang não poderia ter produzido estrelas ou galáxias e portanto exige uma causa sobrenatural.

Felizmente, o próprio artigo do ICR trás a fonte(4) que se trata de uma publicação do Instituto Max-Planck para a Física Extraterrestre baseado em observações do GRB 090323 (Explosão de Raios Gama observada em 23 de Março de 2009) pelo VLT (Very Large Telescope) do Eso.

Lendo o artigo original, percebe-se facilmente as confusões do ICR. Primeiro em lugar nenhum do artigo diz que esta observação contradiz a teoria do Big Bang, pelo contrário. Esta observação nos revela que elementos pesados já existiam na altura correspondente a menos de dois bilhões de anos depois do Big Bang, antes portanto do que se imaginava. Estas observações solidificam ainda mais o nosso conhecimento ao contrário do que os criacionistas afirmam.

Elementos pesados são formados no núcleo de estrelas supermassivas, que quando chegam ao final da vida, explodem e espalham os elementos pelo Universo, formando novos sistemas, como o nosso Sistema Solar. Quanto maior a massa de uma estrela, menor o seu tempo  de vida, pois tende a se consumir mais rapidamente.  Algumas estrelas do tipo Wolf-Rayet, por exemplo, duram poucos milhões de anos(5), portanto em 1,75 bilhão de anos a tempo suficiente para a formação e explosão de muitas estrelas supermassivas, justificando o material observado. Logo, o artigo do ICR não faz o menor sentido.

Se o Jónatas Machado tivesse lido com atenção a fonte original teria percebido:
1) O GRB 090323 confirma que já haviam galáxias no nosso Universo a mais de 12 bilhões de anos e portanto estrelas antes da formação do nosso Sol.
2) Confirma também que estrelas supermassivas fabricam os materiais mais pesados, responsáveis pela formação de novos sistemas como o nosso Sistema Solar.

Fontes:

1 – Comentários no Que Treta!
2 – O quarto dia da criação em Gênesis
3 – Institute for Creation Research – Distant Galaxies Look Too Mature for Big Bang
4 – Max-Planck-Institut für extraterrestrische Physik – VLT Observations of Gamma-ray Burst Reveal Surprising Ingredients of Early Galaxies
5 – Departamento de Astronomia da UFRGS – Evolução das estrelas

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