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Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte I – Galáxias distantes

Em uma discussão “interessante” no blog Ktreta(1) com o Professor de direito e criacionista Jónatas Machado, reconhecido pelo apelido Perspectiva, recebi uma série de links que tinham como objetivo contrapor o meu argumento de que é um FATO o nosso Sistema Solar ter se formado muito depois da formação de outras estrelas no Universo.  Segundo ele, as minhas “provas” e os meus “factos” apoiam-se em modelos desmentidos pelas observações.

Qualquer pessoa minimamente informada sobre astronomia sabe que eu tenho razão. É um conhecimento muito bem estabelecido, mas que causa um sério problema para o criacionismo da Terra Jovem, pois segundo o Gênesis(2) o Sol e as estrelas foram criados depois da Terra, no quarto dia da criação. A Astronomia contradiz completamente a Bíblia e desta forma, não é de se estranhar que ela receba dura oposição por parte dos criacionistas.

A afirmação do Jónatas é extraordinária, pois se fosse verdade, todo o conhecimento astronômico deveria ser jogado na lata do lixo. Nós deveríamos ver uma forte movimentação nas agências espaciais como a NASA, ESA, bem como as universidades com especialização em astronomia. Porem, nada disso foi observado.

Ele me passou muitos links, e eu pretendo escrever sobre todos eles com o tempo. A maioria dos links é do Institute for Creation Research [doravante ICR]. Eu já deveria recusá-los pois não se trata de publicações científicas. Mas não o farei, justamente para demonstrar a desonestidade que ocorre em sites como este.

Em um dos links do Jónatas, apontava para um artigo do ICR(3) intitulado em tradução livre:  “Galáxias distantes muito maduras para o Big Bang”. Segundo o artigo, a observação de uma explosão de raios gama passou por duas galáxias distantes durante o seu caminho a Terra, revelando uma composição química madura demais para estas galáxias jovens. A conclusão do ICR é que o Big Bang não poderia ter produzido estrelas ou galáxias e portanto exige uma causa sobrenatural.

Felizmente, o próprio artigo do ICR trás a fonte(4) que se trata de uma publicação do Instituto Max-Planck para a Física Extraterrestre baseado em observações do GRB 090323 (Explosão de Raios Gama observada em 23 de Março de 2009) pelo VLT (Very Large Telescope) do Eso.

Lendo o artigo original, percebe-se facilmente as confusões do ICR. Primeiro em lugar nenhum do artigo diz que esta observação contradiz a teoria do Big Bang, pelo contrário. Esta observação nos revela que elementos pesados já existiam na altura correspondente a menos de dois bilhões de anos depois do Big Bang, antes portanto do que se imaginava. Estas observações solidificam ainda mais o nosso conhecimento ao contrário do que os criacionistas afirmam.

Elementos pesados são formados no núcleo de estrelas supermassivas, que quando chegam ao final da vida, explodem e espalham os elementos pelo Universo, formando novos sistemas, como o nosso Sistema Solar. Quanto maior a massa de uma estrela, menor o seu tempo  de vida, pois tende a se consumir mais rapidamente.  Algumas estrelas do tipo Wolf-Rayet, por exemplo, duram poucos milhões de anos(5), portanto em 1,75 bilhão de anos a tempo suficiente para a formação e explosão de muitas estrelas supermassivas, justificando o material observado. Logo, o artigo do ICR não faz o menor sentido.

Se o Jónatas Machado tivesse lido com atenção a fonte original teria percebido:
1) O GRB 090323 confirma que já haviam galáxias no nosso Universo a mais de 12 bilhões de anos e portanto estrelas antes da formação do nosso Sol.
2) Confirma também que estrelas supermassivas fabricam os materiais mais pesados, responsáveis pela formação de novos sistemas como o nosso Sistema Solar.

Fontes:

1 – Comentários no Que Treta!
2 – O quarto dia da criação em Gênesis
3 – Institute for Creation Research – Distant Galaxies Look Too Mature for Big Bang
4 – Max-Planck-Institut für extraterrestrische Physik – VLT Observations of Gamma-ray Burst Reveal Surprising Ingredients of Early Galaxies
5 – Departamento de Astronomia da UFRGS – Evolução das estrelas

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3 opiniões sobre “Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte I – Galáxias distantes

  1. Pingback: Criacionismo: A arte de distorcer publicações científicas – Parte II – Retardatários azuis « O Blog do Icarus

  2. está tudo mal, só o que está na bíblia é que está certo!
    Abraços 😉

  3. Obrigado pela visita Nuno,

    Como vc é o comentarista número 1, ganhou pastéis de Belem 🙂

    Bem, devido a temática, eu não devo receber muitas visitas mesmo, então o seu premio vem em dobro 🙂

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